UHF 1978 Os verdes anos de uma banda histórica do rock português

quando o punk estalava em Inglaterra, Portugal ainda se procurava ajustar à liberdade recém-conquistada. Os UHF foram dos primeiros a saciar uma imensa sede de rock nessa nova realidade social e política

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«O nosso primeiro concerto foi no bar É, com os Faíscas. Também tocámos no Brown’s, com os Aqui d’El Rock, e fomos fazendo espectáculos na periferia da Grande Lisboa, quase conquistando localidade a localidade. Do Seixal para o Barreiro e daí para a Moita e por aí adiante», diz Renato Gomes. E essa é uma das marcas da carreira dos UHF que, apesar do impacto nacional, parecem ter-se sempre afirmado como uma banda da Margem Sul, periférica, suburbana. Peres sublinha essa condição quando fala das bandas punk de Lisboa: «não havia espírito de comunidade porque a malta deste lado [Lisboa] era mais burguesa. Os Aqui d’El Rock eram mais genuínos mas o pessoal da Avenida de Roma tinha outra abordagem».
Animados com a força do punk ainda por cima, Carlos Peres tinha trazido vários discos de Londres, que visitou no âmbito de uma viagem de finalistas, os UHF dedicamse a gravar as primeiras maquetas. «Éramos um bocado diferentes porque começámos a registar o nosso trabalho de composição em maquetas, logo antes do primeiro single. Por isso é que agora ando a fazer o trabalho de lançamento de uma série de raridades (ver caixa) porque de facto há material inédito gravado ao longo dos anos», refere António Manuel Ribeiro. «Ora, quando fomos para estúdio gravar o “Jorge Morreu” tínhamos umas 15 canções já em maqueta. No ano seguinte, quando editámos o “Cavalos de Corrida”, já tínhamos espectáculos de duas horas e quando fomos a Paço de Arcos gravar o À Flor da Pele, em 1981, deixámos tudo para trás porque já tínhamos canções novas. Essas maquetas foram sendo gravadas em bons estúdios: no Musicord ou no Arnaldo Trindade, com o Moreno Pinto, o homem que gravava José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Isso também foi possível porque o meu padrinho era amigo dele, por questões políticas. Quando lá chegámos, o Moreno Pinto, qual bloco de granito, perguntou-me “sabes quanto é que isto vai custar?” Eu, claro, borrei-me de medo…». Renato Gomes ficou igualmente assustado «sei que tremíamos como varas verdes» mas também sublinha a determinação que, já nesse momento, animava o grupo.

«”Jorge Morreu” só saiu em Outubro de 1979 (ver caixa), mas já estava gravado desde Março, no estúdio de Campolide do Arnaldo Trindade [fundador do selo Orfeu, hoje integrado na Movieplay]. Um dia para gravar três canções! O disco saiu na Metro-Som, mas nós nunca assinámos um contrato. Fomos para essa editora por causa dos Aqui d’El Rock», adianta António Manuel Ribeiro. O impacto do disco de estreia foi mínimo. «Ninguém na imprensa ligou ao “Jorge Morreu”. Penso que só o António Duarte é que escreveu sobre o disco, no semanário Tempo. Pagámos os nossos próprios discos de promoção e fomos à Rádio Comercial para apresentá-lo. Nem entrámos… Atenderam-nos à porta nem sequer pudemos entrar e trataram-nos com alguma indiferença. Em comparação, seis meses depois, já com o “Cavalos de Corrida” na rua, até nos estenderam a passadeira vermelha», ironiza o cantor.

De facto, a passagem para a Valentim de Carvalho abriu um mundo de possibilidades e transformou os UHF num fenómeno à escala nacional. Francisco Vasconcelos, A&R da Valentim à época e hoje administrador, faz questão de referir que a contratação dos UHF foi praticamente paralela à de Rui Veloso e GNR, «antes de ter saído qualquer disco, penso eu». Ou seja, não havia ainda a certeza de que esta via iria funcionar mas a Valentim tinha uma clara estratégia na manga. «Acho que os UHF complementavam o ramalhete de forma perfeita», explica o homem forte da Valentim de Carvalho. «O Rui era o “singer-songwriter” puro, os GNR a banda mais arty e os UHF o grupo de rua, de garagem, com uma energia muito forte».

O SUCESSO

«”Cavalos de Corrida” tinha “sucesso” estampado e, de facto, vendemos muitos discos», declara Francisco Vasconcelos. Com as vendas a ultrapassarem as 100 mil cópias, a vida dos UHF alterou-se, como seria de esperar, mas o rigor manteve-se. «A seguir ao “Cavalos de Corrida” começámos a ganhar dinheiro. Até aí, éramos uns tesos mas conseguimos ganhar dinheiro suficiente para comprar um ou dois bons carros. Só que preferimos investir num bom PA». Com tanta experiência a tocar com bandas estrangeiras que passavam por Portugal (ver caixa), era natural que os UHF quisessem ter equipamento cada vez mais profissional. Afinal, a estrada, já nessa altura, era o maior argumento deste grupo.

Depois da edição de «Jorge Morreu», na Metro-Som, e dos singles «Cavalos de Corrida» e «Rua do Carmo», já na Valentim de Carvalho, chegou a vez do álbum de estreia, gravado confortavelmente nos Estúdios de Paço de Arcos já com um novo baterista, Zé Carvalho, e com o mítico Hugo Ribeiro, técnico de som responsável por discos de Amália ou Quarteto 1111. «Para fazer o álbum estivemos três meses em estúdio. Com o Hugo Ribeiro, um enorme professor para mim, com o Luís Filipe Barros e o Nuno Rodrigues, que aparecia ao final do dia. Aprendi a estar em estúdio, aprendi uma série de truques e aprendi uma grande disciplina. Os UHF sempre foram muito profissionais em estúdio», garante António Manuel Ribeiro.

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«Na altura, trabalhámos em 12 pistas, o que já era muito bom e a primeira edição de dez mil discos foi feita com vinil de qualidade superior, normalmente usado para a música clássica. Tivemos todas as condições e, por isso, ainda hoje me relaciono muito bem com esse disco». «A Valentim de Carvalho era uma editora muito grande e deu-nos condições fabulosas para trabalhar», concorda Renato Gomes, que, no entanto, reparte os méritos do sucesso com a própria conjuntura do país. «Houve ali um momento em que a televisão, os jornais e a rádio manifestaram um interesse muito profundo pela música portuguesa. Queriam mesmo apoiar e hoje isso já não existe».

Os UHF são hoje, claramente, a «marca» de António Manuel Ribeiro que, ao fim de 30 anos, tem o mérito de ter construído um público que, por vezes parece ser só seu. No arranque da carreira, no entanto, foi com Carlos Peres, Renato Gomes e Américo Manuel que Ribeiro construiu a cumplicidade que lhe permitiu embarcar numa aventura única. São 30 anos de uma história que ainda hoje está a ser escrita.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2007

Ao Vivo em Almada – No Jogo da Noite é o nome do primeiro álbum ao vivo da banda portuguesa de rock UHF. Editado em maio de 1985 pela Rádio Triunfo – Orfeu. [1][2]

Gravado nas noites de 23, 24 e 25 de novembro de 1984, no Centro Cultural do Alfeite em Almada. Entraram para os UHF dois novos elementos provenientes do grupo Go Graal Blues Band: o baixista Fernando Delaere, e o baterista Manuel ‘Hippo’ que substitui Zé da Cadela, que teve uma breve passagem pela banda.[3][4] Contém três inéditos tocados ao vivo: “Três Peixes”, “No Jogo da Noite” e “Tu Queres”. [5]

O álbum foi lançado apenas com o intuito de concluir as obrigações contratuais entre a banda e a Rádio Triunfo. Descontentes com o trabalho da editora, os UHF recusaram entregar mais canções originais e propuseram, no último ano de contrato, a gravação de um disco ao vivo.[6] Pouco tempo depois a Rádio Triunfo viria a decretar falência.[7] Depois da edição deste álbum, o guitarrista e co-fundador Renato Gomes abandonou a banda cedendo o lugar a Rui Rodrigues. [3]

Trata-se do primeiro álbum ao vivo gravado por uma banda portuguesa de rock.[8] Este disco tornou-se o vinil mais raro e caro do mercado de usados, uma preciosidade para colecionadores. [6]

Gabriel Quaresma

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