1998 Almada na Literatura Actual

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Na memória dos séculos, o que sempre sobra é ainda a recordação que vive mais perto e por dentro de nós e a história dos lugares e dos homens se revive na lendária lembrança do que deles ficou e se retoma pelo fio dos anos e nas veredas de outros sonhos. Não há engano que se não desfaça, não existe ilusão que resista por muito tempo ao longo da jornada. Mas a cidade sempre se descobre nas sombras e passos dados pelos lugares de feitiço e de história, de sonho e de luta. E outros são os anseios que por aí nos levam, outras as forças para desvendar idênticos lugares de sedução e de fascínio. Mas na distância do tempo se perde a origem de seu nome como símbolo de águas tão revoltas no desfiar dos séculos. Não se sabe ao certo a que se deve a sua origem: se no começo da história foi mãe-de-água em que as gentes saciaram a sede ou se o nome ficou na lembrança de moiro que por aqui passou e se perdeu. Dizem que será esse talvez o vestígio mais certo. E do nome desse moiro nunca esquecido, Al-Madez assim chamado, ficou até hoje o lugar e o espírito que de Almada ainda se pode revisitar. Longa é a viagem por fazer, duros e difíceis os martírios a suportar, mas a memória que se guarda da história percorrida é rica nos foros que de si restam e pelo tempo se perpetuam. E nem os que pelas ruas da urbe à beira do Tejo se passeiam, sem terem em conta o peso dos lugares por onde avançam, alguma vez se apercebem dos segredos guardados por uma história de séculos, na memória de quem antes por aqui andou e deixou sinais de uma idêntica viagem. Muitos são os nomes que se perdem e se ligam a Almada sempre revisitada, ainda na lembrança de Fernão Lopes dizer, na altura de estar a vila sitiada e a ela ter chegado o Mestre e o conde dom Gonçalo com umas duzentas lanças, “e os da vila saíram todos a recebê-lo com procissão e lhe entregaram com leda vontade, contando-lhe as pressas e tribulações que haviam passado por ter sua voz, e ele prometendo de lhes fazer mercês”.
Sim, é bem longo o rol de quem está ligado às terras de Almada, de Cacilhas ao Sítio do Pragal, na origem e começo da história aos confins das terras alargadas pelo Lazareto, Costa da caparica, Fonte da Telha ou Cova da Piedade de boa memória nas lutas de resistência em tempos de fascismo. E desde esse acto corajoso de Frei Luís de Sousa, relembrado nas páginas de Garrett, ou das andanças de burriqueiro na infância desprotegida do celebrado padre José Agostinho de Macedo, até aos passos iniciais de poetas e pintores presos às paragens de Almada, na evocação pungente das cartas familiares de dom Francisco Manuel de Melo escritas da Torre Velha, no Lazareto (“Saiba, Senhor meu, que estou solto e livre, porque a alma não está na Torre Velha“), ou no descanso final de Fernão Mendes Pinto, que no Pragal fechou os olhos ao mundo antes de ser publicada a Peregrinação, impenitente andarilho das sete partidas que nestes sítios e terras encontrou o sossego da velhice em casamento de conveniência, enfim, de tudo nos falam as pedras e lugares da cidade da Outra Banda, percorrida de ponta a ponta, no ressuscitar de histórias antigas no Ginjal de velha e antiga memória. E se a história das terras e das suas gentes é transmissível pelos sinais que delas ficam, não há dúvida de que essa história se valoriza quando retomada em perspectivas diferentes e dela conhecem as imagens mais precisas dos contornos sociais e geográficos de uma paisagem tão alterada. E o que de Almada hoje mais dialoga connosco é essa antiga e constante proximidade do Tejo que abraça as duas margens e do alto da Casa da Cerca se pode olhar o rio e imaginar as faluas e bergantins que por ali já não andam, substituídas que foram pelos velhos cacilheiros de uma para a outra banda no vaivém de todas as horas.
Ora, na Antologia organizada por Fernando Miguel Bernardes sob o título de Literatura Actual de Almada, o que sobressai, nos vários domínios de expressão literária, é esse sentido de reconhecer o “espírito do lugar” e das suas gentes e, como facho recebido de outras mãos, saber transmitir aos seus leitores uma impressiva “memória descritiva” dos sítios de Almada que hoje se renovam pela poesia e a crónica, pela ficção e o teatro, pelo ensaio e o património e história local, sem que esse sentido marcadamente literário se perca em divagações pessoais que não tenham a ver com a cidade da Outra Banda. Mas trata-se de uma Antologia muito especial, não só por se desejar dar a conhecer os textos de quem nasceu ou vive na cidade, mas sobretudo por ser através desses textos, e da sua expressiva criatividade, que se retoma um outro renovado “discurso” em redor da cidade numa visão actualizada e comovida de entender o espírito dos lugares a que tanta gente está ligada.
Ao longo de mais de 700 páginas, esta Antologia sobre Almada revela textos e autores uns mais conhecidos do que outros, é certo, mas todos eles empenhados em dar a sua visão pessoal da cidade que se espraia ao longo do Tejo e é tributária, no plano literário, do que se passa do outro lado do rio, com Lisboa diante dos olhos. Mas, na clara diversidade dos géneros literários presentes nesta Antologia, que em larga medida revela mesmo um elevado número de textos inéditos, devemos destacar os poemas de José Correia Tavares, Maria Graciete Besse, Nuno Gomes dos Santos ou Teresa Rita Lopes, as belíssimas páginas de ficção de Alexandre Castanheira, Filipe Leandro Martins, José Cardoso Pires, Leonardo Consei, Luísa Costa Gomes, Maria Rosa Colaço, Romeu Correia ou Virgílio Martinho, os interessantes ensaios de Álvaro Pina, José Rebelo ou António José Saraiva, as muito bem elaboradas histórias para crianças de Fernando Miguel Bernardes, Rui Cunha Viana e Virgílio Martinho ou mesmo ainda os contributos valiosos para a compreensão do património e da história de Almada de Alexandre M. Flores, José Mattoso, Louro Artur ou Reinaldo Varela Gomes.
E, cumprida que fica a sua tarefa de organização e selecção dos textos incluídos em Literatura Actual de Almada, podemos repetir com Fernando Miguel Bernardes, nas linhas finais do seu prefácio, que “crentes somos de que a arte e a cultura encontram a sua verdadeira expressão, e expansão, na comunhão de esforços. E só assim foi possível devolvermos à população uma tão significativa amostra da literatura que actualmente em Almada se vem realizando. E mostrá-la a quem, quer dentro ou fora de nós, as belas-letras sabe e pode amar”. Portanto, aqui deixamos o nosso recado: quem desejar ter de Almada e das suas gentes uma visão mais aproximada no plano literário, não poderá deixar de ler e recomendar esta excelente Antologia que acaba de ser publicada.

Serafim Ferreira

LITERATURA ACTUAL DE ALMADA
Antologia –
Organização, Selecção e Prefácio de
Fernando Miguel Bernandes.
Ed. Município de Almada / 1998.

Gabriel Quaresma

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