2001 – Tectos de lona da Caparica são habitação de todo o ano

CAPA_ALMADA
jnlusomundo
22 de Outubro 2001

Praia, campo e sossego conquistam os campistas, quer chova ou faça sol

Celeste Chagas deixou a sua casa em Lisboa e mudou-se para um parque de campismo na Costa de Caparica, onde vive há oito anos. Juntamente com ela, vivem no parque da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (SFUAP) mais umas poucas dezenas de sócios da colectividade.
Ali encontraram, por opção ou necessidade, um tecto de lona como morada, onde, pagando um módico aluguer mensal de dez contos, têm luz, água e pequemos luxos, como televisores, frigoríficos, fogões e móveis de sala. São pessoas que lamentam não ter dinheiro para comprar uma casa, que se fartaram do rebuliço das cidades ou que, simplesmente, gostam de fazer campismo com sol, chuva, vento ou frio.
Há mais de 20 anos que Celeste frequentava o parque de campismo, mas nunca pensou vir a fazê-lo 365 dias por ano, até ao dia em que o tecto da cozinha do seu andar abateu.
Alfredo Santos, de 63 anos, trocou o betão pela lona por pura opção de vida. “A minha única salvação é o parque de campismo. Sinto aqui uma descompressão muito grande”, sublinha. Alfredo tem casa no centro histórico de Almada, mas há ano e meio que ele e a mulher só lá vão para lavar a roupa e buscar correspondência.
Aos 60 anos, a empresa onde trabalhava dispensou-o. A agravar o mal, tinha noites mal dormidas por causa do barulho na rua provocado pelos noctívagos que saíam dos bares. Mais tarde, uma crise de hipertensão arrastou-o para o hospital e decidiu mudar de vida.
“Praticamente não saio do parque. Dou um saltinho à praia, ao café, jogo uma partida de cartas e de damas, e não quero outra coisa”, conclui. Tanto mais que goza de acesso directo à praia, café, restaurante, sala de convívio, talho, supermercado, peixaria, tabacaria, posto médico e campo de futebol.
“Não troco isto pela cidade. Faço desporto, oiço os passarinhos e vivo mais dez anos”, defende, por sua vez, Nuno Dias, de 33 anos, um surfista que, aos 29, trocou a casa da avó, em Cacilhas, por uma tenda no parque. Até ao dia em que conseguir concretizar um sonho: ter uma casa ao pé do campo ou da praia para continuar a ouvir os pássaros e praticar desporto.

Gabriel Quaresma

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