Cooperativa de Consumo Piedense 1968

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A Cooperativa de Consumo Piedense, fundada a 4 de Março de 1893, remonta historicamente ao movimento associativo dos finais do séc. XIX.
Historicamente, a fundação da Cooperativa insere-se no movimento associativo dos finais do séc. XIX, como resposta social e económica dos trabalhadores ao sistema capitalista, e na acção de artesãos e corticeiros. Nas décadas de 1930 e 1940 a CCP destacou-se ao nível socioeconómico, minimizando a miséria e a fome que assolavam as famílias dos corticeiros, resultantes de crises laborais, de movimentos grevistas e da recessão económica da II Guerra Mundial.
O ensino e o direito à cultura foi sempre uma preocupação das elites dirigentes, concretizando em 1949 com a inauguração da biblioteca. A principal missão da biblioteca era divulgar uma cultura democrática, proporcionando aos associados o conhecimento do mundo e da sociedade. O acesso a obras literárias proibidas pela censura e a discursos proferidos por escritores e intelectuais oposicionistas contribuíram para preservar a Biblioteca na memória colectiva, como um espaço de aprendizagem e de oposição à cultura do Estado Novo. As iniciativas das Comissões Culturais manifestavam-se em diversas áreas, desde a publicação de boletins informativos e culturais, sessões de cinema documental, organização de colóquios e conferências até ao ensino.
A partir da década de 50 assiste-se a um crescimento do número de associados, operários e funcionários do Arsenal do Alfeite que passam a integrar os órgãos sociais da CCP. A cultura e acção dos novos dirigentes contribuíram para a implementação dos Serviços Médicos e de Enfermagem em 1955, e para a criação de subsídios de doença, de invalidez e de funeral, beneficiando centenas de famílias sem assistência social. Em 1956, com a aquisição da quinta da Argena, inicia-se um projecto inovador articulando a função de cooperativa de consumo à cooperativa de produção agrícola, com a instalação de um aviário e de uma vacaria.
A década de 60 assinala o crescimento económico, cultural e humano da CCP resultante da rentabilização e modernização dos serviços, da dinamização cultural e da consequente adesão de novos sócios, beneficiando das relações com representantes de organizações cooperativas internacionais, nomeadamente com técnicos suecos. Na época existiam algumas dúvidas por parte dos suecos em relação ao carácter popular do movimento cooperativo, devido ao regime fascista. Contudo, na sua visita a Portugal e à CCP John Walter Ames, Presidente da KF, veio comprovar que o movimento cooperativo português representava uma actividade social economicamente independente e de oposição ao Estado Novo. No âmbito dos contactos internacionais com organizações cooperativas destacam-se as relações com a Cooperativa Los Cooperadores de Echevarria, de Bilbau, e a existência de uma rede de cooperação que encontrava na Suécia o apoio técnico e estratégico de desenvolvimento. Em 1963/1964 a CCP foi considerada a maior cooperativa da Península Ibérica, competindo com a de Bilbau. Segundo o testemunho do sócio/dirigente Jorge Rodrigues foi John Walter Ames, numa reunião em Sesimbra, que terá afirmado que a CCP era a maior cooperativa Ibérica na sua dimensão económica, social e cultural. Atributo que contribuiu para o prestígio social dos seus dirigentes junto da comunidade local e das suas congéneres no espaço nacional.
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A década de setenta é marcada pela crise económica, pelo surgimento de cadeias de supermercados e por uma crise política interna, agravada pela vigilância da PIDE e a detenção de alguns sócios. Neste contexto, acentua-se o conflito entre grupos, num movimento de reacção a todas as actividades culturais que pudessem comprometer o futuro da Cooperativa, deliberando-se a suspensão e expulsão de associados de ambos os grupos. Paralelamente, a vigilância da PIDE sobre as iniciativas culturais e as perseguições políticas a sócios, membros do Partido Comunista na clandestinidade, agudizavam a crise relacional entre sócios/dirigentes.
A partir da década de 80, quando a estratégia global do movimento cooperativo tornou prioritária a eficiência económica das cooperativas, em detrimento da sua cultura e ideologia, a integração da CCP na Pluricoop inseriu-se nesta política, obliterando um passado histórico de intervenção social e cultural que os sócios teimavam preservar. Em 2010 a CCP encerrou a sua actividade, após cinco anos de fusão na Pluricoop, deixando um espólio bibliográfico e documental incomensurável. Para os antigos dirigentes a fusão na Pluricoop representou a aniquilação de um projecto cooperativo singular, e a perda de uma referência cultural.
As organizações cooperativas, como a CCP, representam uma longa história de ideias, utopias e práticas, em que a consciência de lutar pela comunidade ideal foi tão importante como deverá ser no futuro. Para isso, os aspectos económicos não podem sobrepor-se à ideologia, descaracterizando as organizações cooperativas. A orientação futura exige visões em relação à identidade do movimento cooperativo, à democracia participativa e à economia efectiva. Boaventura Sousa Santos diz-nos que é necessária uma globalização alternativa, uma globalização da solidariedade e da reciprocidade, da cidadania pós-nacional, do desenvolvimento económico sustentável e democrático, do comércio justo como condição do comércio livre, do respeito pela igualdade através da redistribuição, e do respeito pela diferença através do reconhecimento. Numa sociedade ultraliberal em que o Capital se reproduz a si próprio, o Cooperativismo pode contribuir para uma sociedade mais justa, mas o seu futuro depende da integração dos jovens nas organizações. Para tal, os dirigentes das organizações cooperativas antigas devem permitir que os jovens sejam pioneiros, tal como eles foram no passado, deixando-os tentarem, falharem e triunfarem, de forma a recuperarem a cultura e a dinâmica fundadora. A memória colectiva dos sócios da CCP reflecte o compromisso da partilha e da troca entre gerações, na construção de um ideal de grupo, em que a solidariedade e a reciprocidade constituíram um quadro de valores que atribuem sentido e significado à sua pertença ao grupo de associados. A sobrevivência económica e a resistência política apresentam-se como marcadores temporais na vida dos sócios, representando a vitória da solidariedade sobre o individualismo, simbolicamente perpetuada na memória colectiva como “a maior Cooperativa da Península Ibérica.
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2013

Cooperativa Piedense faz 120 anos

1
A Cooperativa de Consumo Piedense comemorava o seu aniversário no mês de Março, com um programa cultural que tentava transmitir às gerações futuras a sua história e identidade. Esperemos que a Pluricoop, actual detentora do seu espólio material e cultural a possa reabilitar. Entretanto, prestamos a nossa homenagem à CCP, publicando ao longo deste mês 31 testemunhos de antigos associados, para festejar o seu 120º Aniversário.
2
João Jorge Tavares Gama nasceu na Cova da Piedade em 1926. Foi dirigente da SFUAP, do Clube Columbófilo Piedense, presidente da URPICA e colaborador da Cooperativa

“Você sabe, nascemos num meio associativista do mais importante que existe no nosso país, o mais importante que ainda existe no nosso país. Eram associações para tudo e para nada, mas sobretudo as grandes associações, SFUAP, Incrível e Academia e por ai fora. E eu vivi, um bocado, este ambiente aqui, desde garoto na Sociedade, depois fui crescendo. Quando já estava crescidinho comecei a interessar-me pelo aspecto social da Cooperativa. É pá e aquilo mexeu um bocado comigo! Eu já não digo se isto é formação ou se é uma coisa que nasce dentro de nós pá, dentro das barrigas das mães, não sei. De maneira que pronto, fiz-me sócio, ainda era solteiro, fiz-me sócio da Cooperativa e até hoje. E até hoje, já lá vão mais de cinquenta anos. (…) A Cooperativa aqui ao nível da freguesia teve uma importância muito grande, aquilo é um mundo, falar da Cooperativa… Colaborava na divulgação das ideias democratas, das ideias socialistas, tal, tal etc., mas não estava à vista. Tinha de ser resguardado, tinha de ser com calma, de maneira habilidosa para esclarecer as pessoas. E é como lhe digo a biblioteca da Cooperativa era uma Universidade aberta, pela quantidade de livros que tinha e pela variedade de temas que cada livro tinha e passaram por ali grandes vultos pela Cooperativa, tive o privilégio de cumprimentar nomes ilustres. Passaram pela cooperativa, grandes figuras da intelectualidade portuguesa, Ferreira de Castro, o Fernando Namora, o espanhol que veio cá com o Namora, não me lembro o nome dele, o Soeiro Pereira Gomes, o Urbano, passaram por cá tantos! (…) A Cooperativa foi espiada durante muitos anos pela PIDE, espiada e em alguns casos até davam conhecimento a nós: “Eu sou da PIDE venho aqui assistir à vossa Assembleia Geral”, até às Assembleias Gerais eles iam. Eles não podiam com aquilo, eles não podiam com o associativismo. (…) Alguns rapazes da Piedade foram presos pela PIDE mas não era pelas actividades que desenvolviam lá dentro, era pelas actividades que desenvolviam cá fora, clandestinidade aquelas coisas clandestinas etc. Pelo menos que me lembre, assim de repente, de uma vez foram três, o Mário Araújo, o Raul Cordeiro, o Albertino, como empregados foram estes três. Foi uma leva muito grande na época das eleições de um candidato que toda a gente apoiou claro, que estava a afrontar o fascismo, que era o Humberto Delgado. E depois do Humberto delgado foi uma caça ao homem que foi uma coisa tremenda. (…) Servi o movimento cooperativo e o movimento cooperativo também me serviu, dentro deste intercâmbio de solidariedade, porque o cooperativismo é solidariedade, era amizade, até o símbolo eram duas mãos dadas, serviu muita gente, podia servir também muito mais gente ainda se realmente não houvesse este ambiente mercantilista que hoje nos rodeia a todos.” (João Gama – 2005)
3
Mário Lopes Quaresma nasceu na Cova da Piedade em 1921. Foi 2º secretário da Direcção da SFUAP, 1º secretário da Direcção da URPICA, membro do Grupo Cénico do Clube Desportivo Piedense, colaborador e empregado da Cooperativa de Consumo Piedense.

“Naquele tempo a gente vivia a Cooperativa, a gente vivia a colectividade. Considerávamos que aquilo era talvez uma tábua de salvação para a nossa situação financeira. (…) É preciso que as pessoas acreditem naquilo, vivam aquilo. Se as pessoas vão para lá só com a ideia de comprar coisas também não interessa, mas viver aquilo. As direcções da Cooperativa também têm o dever de fomentar aquilo, o caso da biblioteca, o caso dos serviços médicos e tudo. (…) Eu também fui elemento da Comissão da Biblioteca, até fizemos lá umas exposições de cerâmica e de pintura. Eu fui à casa dos pintores, do Júlio Pomar e doutros, fui a casa deles para conseguir que emprestassem o material para gente, fomos à Marinha Grande buscar coisas, fomos a Sacavém buscar cerâmica, eram exposições que nós fazíamos. (…) O inglês e o francês aprendi lá dentro, até chegou lá a haver o esperanto, mas depois o Salazar acabou com o esperanto. A biblioteca tinha um leque de livros formidável. A Comissão Cultural acabou, relacionavam aquilo ao Partido Comunista e tudo que e relacionasse com o Partido, ardeu, não havia nada para ninguém. (…) Eu a primeira vez que fui ao Tribunal da Boa Hora foi defender dois colegas lá da Cooperativa. A PIDE foi lá, deu volta aquilo tudo e aqueles que já tinham lá marcado foram buscá-los à Cooperativa. O Albertino Ferreira de Oliveira foi um, o Raul Cordeiro foi outro. Foram lá buscá-los porque eram contra o Salazar. (…) A Cooperativa significa muito para mim como pessoa, eu fiz-me homem ali dentro.” (Mário Quaresma – 2005).

Cooperativa de Consumo Piedense no Facebook:
https://www.facebook.com/CooperativaDeConsumoPiedense
todas as fotos e testemunhos fazem parte de um trabalho de investigação académico realizado entre 2004 e 2005 que pode ser consultado aqui: https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/1259

Gabriel Quaresma

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